O Relato do Michell

"O segredo da magia está nas mãos, na mente e no coração de quem se dispõe a ela." - Por Michell Lott

Saímos em busca de ancestralidade e fomos parar no Quilombo Ivaporunduva. Mas em vez de se mostrar nos povos, ela se manifestou inicialmente na natureza. Um pedaço preservado da mata atlântica cheio de exuberância, que resistiu ao tempo, trouxe um nada sutil lembrete: nossas inquietações mais profundas não significam muita coisa perto do todo. Todas as nossas confusões juntas são menores que uma gota de chuva em uma folha. Somos parte de um jogo muito mais complexo do que imaginamos.

Antes de embarcar por completo nas aventuras da vida, faz bem olhar, também, para dentro. Na busca de se integrar com o todo, corremos o risco de ignorá-lo por completo. Para fazer parte de algo, antes é preciso ser um. O egoísmo, sem qualquer sentido pejorativo, é um dos ingredientes mais fortes do altruísmo. O respeito a si próprio é o caminho mais rápido para entender os outros.

Para quem busca ouvir todas as vozes, faz bem lembrar: dentro de todas, também está a própria.

A vida urbana fez de nós seres tão abstratos que a simples relação com a natureza parece complicada aos nossos olhos. A cadeia alimentar é como uma mandala muito colorida e muito complexa, cheia de detalhes, cujas partes foram separadas em categorias arbitrárias por nós. Mas essa visão de quem se distanciou também pode pode trazer uma bela vantagem: a fascinação do redescobrir. Os povos quilombolas plantam feijões violetas e outras sementes de cores inesperadas, sem jamais perder o respeito pela natureza, pois tudo vem dela e tudo volta para ela. Assim, tudo está disponível para todos. Quer lógica mais simples?

Foi durante a busca pela ancestralidade que conhecemos Dona Cecília, uma mulher negra de uns 80 anos com mais vigor do que eu. Seja nas suas plantações com vários tipos de vegetais ou seja na sua inacreditável cozinha de taipa, com seu caldeirão borbulhante e sua vassoura feita de mato, dona Cecília revelou sem querer o segredo da magia: ela está nas mãos, na mente e no coração de quem se dispõe a ela.

 

Na busca pela ancestralidade, todos os caminhos levam para a casa da Dona Cecilia, a mais selvagem, mais livre e, talvez por isso, a mais querida por mim dentre as anciãs de Ivaporunduva. Foi de surpresa que chegamos lá, entre uma lição e uma fuga, e descobrimos seu jeito simples de tecer esteiras. Usando pedras, palha, cordas e paciência, ela materializa objetos que ajudam a completar o orçamento mensal.

Dentre todos os presentes materiais e imateriais que eu trouxe de lá, estão uma esteira que comprei dela, mudas de folhagens tropicais que ela colheu do jardim e várias memórias mágicas. Em uma delas, fomos pegos por uma chuva de verão enquanto estávamos em sua plantação, cercados de montanhas, de florestas, de tudo e de nada ao mesmo tempo. Inesquecível!

A vassoura é um objeto cheio de poder: limpa, tira as energias ruins, espanta visita indesejada quando atrás da porta e serve de meio de transporte nas noites de lua cheia. No quilombo, elas são feitas com as próprias mãos, ou seja, são mais poderosas ainda. Como parte da busca pela nossa própria tranquilidade, resolvemos seguir o exemplo da dona Cecília e fazer nossas próprias versões, perfumadas, decorativas e contemplativas. O resultado fala muito mais sobre nós do que deveria: mais estéticas que funcionais, trazem propósitos bem diferentes dos originais. Mas ainda assim, poderosíssimas!

Se for possível elaborar algum tipo de conclusão quanto à busca pela ancestralidade, esta se apresenta na forma de ressurreição: o que era antes renasce de uma nova maneira, se reinventa para coexistir em um mundo diferente, mas traz em si a energia primordial. O cesto vira luminária. A peneira vira quadro. O cipó vira ornamento. E a sabedoria, mesmo que de roupa nova, espera-se que permaneça sabedoria. O importante é que a memória permaneça viva! 

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