O Relato do Marcelo

"O que aprendi com os quilombolas do Vale do Ribeira" - Por Marcelo Rosenbaum

Chegou um momento da minha jornada enquanto designer em que eu resolvi criar mais impacto na sociedade. Para isso, precisei entender e desconstruir o objeto enquanto design. Design é um processo, uma forma de se relacionar com as pessoas, incluindo-as, ouvindo-as. Há 6 anos criamos o A Gente Transforma, um movimento fundamental para nos aproximarmos de algumas comunidades tradicionais do Brasil, que são laboratórios para nosso aprendizado e construção de uma metodologia batizada de “Design Essencial”.

Design Essencial é um movimento baseado em três pilares: a ancestralidade, o olhar para esses saberes, que também pode ser vocação; a beleza em suas múltiplas dimensões, na ética, na estética, nesses encontros; e a sustentabilidade enquanto autonomia e liberdade. Isso é uma metodologia, na qual a gente desconstrói o objeto mirando sempre a descolonização do olhar, nesse exercício de não nos colocarmos enquanto colonizadores, uma questão que está impregnada na nossa alma. A gente chega achando que o outro vai precisar do que precisamos, do que queremos, mas isso não é verdade.

Hoje, sou guardião de um saber que grandes mestres me passaram, porque vejo comunidades tradicionais como universidades. Resolvi então ministrar o curso de Design Essencial no Centro Universitário Belas Artes, com uma imersão junto com os alunos para entrar em contato, também, com esses “professores”. Com o apoio do Instituto Socioambiental (ISA), fomos a Ivaporunduva, uma comunidade quilombola no Vale do Ribeira (SP). Quando ouvi o nome Ivaporunduva pela primeira vez, isso imediatamente entrou no meu coração e não tive dúvida, mesmo sem conhecer o Ribeira: é para lá que nós vamos. Geralmente, identificamos a região por outros lados: florestas, cavernas, história, mas quando chegamos lá pude ver, também, a conexão deles com a natureza enquanto coletivo.

Olhar para as pessoas que vivem em Ivaporunduva elevando a sabedoria deles, o conhecimento deles, trouxe muita inspiração. Fomos 30 e poucos alunos curiosos, num feriado de 15 de novembro, depois de um semestre de aulas teóricas, com uma proposta de criar empatia, de nos abrirmos para o outro, de desconstruirmos alguns estereótipos e crenças limitantes que carregamos, como a de acreditar que o Brasil é um país pobre ou que comunidades quilombolas têm baixo Índice de Desenvolvimento Humano. Isso é uma métrica absolutamente equivocada, nesses lugares o que tem é desenvolvimento humano.

Quando a gente chega em Ivaporunduva, a sensação é a da abertura de um portal de outro tempo-espaço, com pessoas que se mantiveram naquelas terras, preservando-as, conservando uma relação íntima com a própria natureza. Cada mato que a gente pisa, na verdade é uma erva que tem um poder de cura. Se por um lado vemos questões como o esquecimento e o abandono, por outro percebemos a resistência e o aprendizado que a comunidade nos transmite. Uma sensação de troca. O que me marcou muito foi ouvir de uma das senhoras quilombolas, logo no encontro inicial, na primeira palavra que ela fala, que ela tem o sonho de manter a ancestralidade em Ivaporunduva. Para mim aquilo mostrou que o caminho era aquele mesmo.

O primeiro movimento mágico foi a recepção pelas sábias de Ivaporunduva, senhoras que quase não se apresentam para os turistas e são detentoras de segredos, saberes ancestrais.

Nos encontramos na Capela de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, a igreja de Ivaporunduva, e essas senhoras nos contaram que o sonho delas é manter a ancestralidade viva no Quilombo, porque os jovens perdem um pouco esse interesse, por conta de tecnologia. Daí entra nossa responsabilidade nesse processo. No segundo dia, fomos em busca dos valores, das belezas e patrimônios materiais e imateriais de lá. Fomos resgatando objetos ancestrais, como cestos e esteiras, recolhemos tudo e ouvimos histórias de cura relacionadas à integração com a natureza, ao entendimento de que somos um ser espiritual fazendo parte da própria natureza. Fizemos uma arqueologia afetiva.

Uma série de coisas como essa foram acontecendo até construirmos juntos uma lembrança, como um legado, para deixar em Ivaporunduva. Não fizemos um objeto fruto de toda essa investigação, mas sim um espaço ornado, para onde foram levados os saberes quilombolas, e que poderá servir como lugar de encontro de alimentação, de reuniões, de recepção de turistas. É uma casa tradicional de taipa, com bambu, muito fresca, com muito conforto térmico, com beleza. É importante honrar esse saber de trabalhar com barro, que é o saber de trabalhar com a própria natureza. Construímos um salão de eventos. Antes guardados, cestos, peneiras, ferramentas de trabalho e balaios foram ressignificados e ganharam espaço nas paredes do ambiente. Quando os quilombolas entraram na casa, sentiram essa vibração de afetividade, porque eu acredito que o objeto carrega vida, herança, memórias. Essa casa ancestral virou um espaço de cura dos saberes, das relações, dos encontros.

Olhar para Ivaporunduva, para o Vale do Ribeira, é nos ajudar a nos encontrarmos. Qual é a identidade do Brasil? Quem construiu esse país com sangue, suor? Também os afrodescendentes, hoje quilombolas. Mas quem são eles? São os brasileiros. Olhar para uma comunidade quilombola diante de todos os conflitos que temos na cidade grande me faz ver esses quilombolas como mestres em potencial, de aprendizado para o futuro da humanidade.  

Eu olho para aquelas mulheres e vejo a raça que elas têm para viver, a força da vida, a resistência, com todos aqueles saberes que hoje são tudo o que estou buscando: a minha essência. Eu me prostro à frente daquelas anciãs, daquelas sábias, daquelas árvores. Elas são árvores antigas, são a própria natureza, são as guardiãs daquilo tudo, são grandes mestras.

Para vermos isso, temos que desconstruir as crenças que temos, que nos são impostas. Eu estou aqui para quebrar a crença. Com muito respeito, responsabilidade e estudo, sou um aluno esforçado, aprendo e multiplico. Porque aprender e guardar para você mesmo não tem graça. A gente não tem outro caminho senão integrar, diminuir as diferenças. Se a gente não diminuir as diferenças, se não incluirmos a diversidade como saberes, vai todo mundo para o mesmo buraco.

A comunidade de Ivaporunduva é feita de professores, a própria natureza do Vale do Ribeira é uma professora. Ir para lá da maneira que fomos, abertos para receber os ensinamentos daquelas senhoras, que nos falaram das ervas, da natureza e de suas vidas, fez com que eu virasse uma criança deslumbrada diante delas.

Mergulhar na cultura quilombola é encontrar nossas próprias raízes, encontrar essas sábias nos entregando seus segredos, que são o ouro delas, com tanto amor, simplicidade, o que é mais um aprendizado. Elas preservam toda aquela natureza, 80% do território da Quilombo é floresta. Toda a comunidade trabalha junta, trocando, fazendo rodízio de formas sustentáveis para conseguir a subsistência. Então, nossos três dias por lá foram como uma universidade que nos transformou profundamente. A importância de olharmos para comunidades como Ivaporunduva hoje é exatamente essa: entrar em contato com um Brasil muito rico de diversidade, natureza e cultura.

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