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Sobre o projeto

A convite da Fundação Bradesco, mergulhamos na zona rural de Formoso do Araguaia para conhecer a Fazenda Canuanã e propor um modelo de moradia quase 800 alunos. Foi um desafio infinitamente maior e mais potente do que um simples redesenho de espaços.

História

A convite da Fundação Bradesco, mergulhamos na zona rural de Formoso do Araguaia para conhecer a Fazenda Canuanã, em um encontro de 3 biomas, cerrado, pantanal e amazonia. Canuanã é uma escola rural em regime de internato mantida pela Fundação há quase 40 anos. Um espaço que acolhe crianças e jovens entre 7 e 18 anos e que, durante todo esse tempo, cumpre vários papéis: é casa, família, abrigo, laboratório e sala de aula.

Nossa primeira visita a Fazenda Canuanã veio do convite para redesenharmos as moradias. Elas acolhem infâncias e pensamentos de milhares de crianças que crescem ali, protegidas, cuidadas mas ao mesmo tempo apartadas de suas referências culturais e familiares e distantes de sua ancestralidade.

Foi um desafio infinitamente maior do que um simples redesenho de espaços. Em Canuanã, era preciso construir as paredes com as histórias e os desejos de cada criança, era preciso ouvir o que elas tinham a dizer. A nossa vontade é que elas pudessem reconquistar memórias e referências pessoais e trazê-las para dentro de um espaço comum; uma forma de construir o entendimento de suas ancestralidades.

Para trazer para a Fazenda Canuanã um pouco da tradição, do contexto e da história do local, era preciso ampliar a nossa ocupação para além dos muros da escola e trazer para as conversas a cultura dos habitantes da terra. O tijolo de adobe, a madeira, a intuição do trançado da palha, a casa do caboclo, a importância do rio, juntos, tinham que estar presentes ali.

PROCESSO CRIATIVO

Para reconectar o espaço com as histórias do lugar, partimos para a primeira etapa da nossa metodologia de design essencial, que dessa vez seria aplicada pensando na arquitetura e a complexa ocupação dos espaços.

Na etapa de investigação, juntamente com a Fundação Bradesco, fomos ouvir os alunosde Canauanã, identificar suas necessidades, investigar os métodos construtivos e os elementos ancestrais relacionados aos modos de viver e de morar. Partimos então para desbravar as águas do rio, a sabedoria dos indígenas que sempre estiveram por lá. Visitamos a aldeia Javaés e fomos guiados pelo conhecimento da tribo para pensar na função dos espaços, na escolha dos materiais, na organização da Fazenda.

Também fomos ouvir o caboclo que usa sua intuição para deixar sua vida simples sempre funcional. Essas duas referências são base da construção da memória ancestral dos alunos de Canuanã. Por fim, estimulamos as crianças a pensarem na representação do lugar onde vivem, para que assim o espaço ocupe o papel de casa, não somente de escola.

A co­criação é um valor e faz parte da metodologia. Convidamos os jovens arquiteto Gustavo Utrabo e Pedro Duschenes (Aleph Zero) para integrar o time de arquitetura, trazendo ao processo visões e diálogos complementares a respeito do espaço e a forma de interagir com ele.Integramos também uma equipe de comunicação para documentar e produzir um material sobre este processo, para que possa servir de legado para a Fundação Bradesco, e ajudá-los a multiplicar essa nova visão de trabalho.

Somente depois de investigar as raízes do lugar, as origens culturais dos alunos de Canuanã e co­criar a função e ocupação dos espaços é que evoluímos para o desenvolvimento do projeto arquitetônico em si, que é a representação, síntese do processo de acolhimento do indivíduo dentro de sua própria história.

Junto com os nossos parceiros da Aleph Zero, os diretores da Fazenda e, principalmente, com as crianças, fomos em busca de conhecimento e intenções para ocupar os espaços. Criamos atividades imersivas que nos ajudaram a ouvir as intuições verdadeiras daqueles corredores. Nas oficinas de referência espacial feitas entre as crianças, as ajudamos a entender o espaço que ocupam dentro daquele lugar onde o público e o privado coexistem.

Dentro do projeto, está prevista a ocupação de 25 mil metros quadrados em espaços para moradia e convivência, usando como matéria­ prima o tijolo de adobe, madeira, grafismos indígenas que vão identificar as moradas. Também faremos espaços com função paisagística para reconectar as crianças com a biodiversidade do local.

IMPACTO

Falar de impacto dentro do projeto Fazenda Canuanã é tentar dimensionar o lastro da nossa cultura dentro da história. A experiência em Formoso do Araguaia prova que a sabedoria do índio e do caboclo na construção e ocupação de espaços são patrimônio da nossa brasilidade. Talvez ainda mais significativo seja presenciar mais de 1.200 crianças descobrindo o poder dessa carga genética e cultural.

Gostamos de pensar que um movimento coletivo tem a força necessária para redesenhar significados. Nesse processo de cocriação, permitimos que tijolo, madeira e barro ampliassem o sentido de suas funções, deixando de ser apenas elementos para se tornarem parte da nossa cultura, do nosso conhecimento. Assim, os 25 mil metros quadrados construídos para acolher as crianças também ganham novo significado, representando muito mais do que moradias. Passam também a exercer a função de contar suas histórias, suas memórias de gente da terra.

Neste novo momento, a localização das moradas não mais reside no coração da fazenda como antigamente, pois este deve ser preenchido com programas diretamente relacionados ao ato de aprender. As novas vilas, mais amplas e arejadas estão localizadas em pontos estratégicos que guiam o novo crescimento da fazenda, organizando o território e possibilitando uma melhor leitura espacial e funcional da escola.

PASSADO E FUTURO

Um dos maiores desafíos dos nossos projetos no A Gente Transforma é encontrar formatos que nos ajudem a reconquistar tradições, materiais e visões contemporâneas. É neste momento em que a tecnologia aparece como ponte entre o ancestral e o atual e nos permite olhar para trás e para frente ao mesmo tempo.

Neste projeto, por exemplo, usamos a Madeira Laminada Colada (MLC), que permite a fabricação de peças de grandes dimensões proveniente de florestas plantadas em áreas de recuperação. Essa tecnologia possibilita curvas, seções variáveis e avanços que aumentam muito o campo de aplicação de madeira na construção. Ao mesmo tempo, usamos como matéria-prima tijolos de adobe, contrapondo passado e futuro em uma proposta única.

Além disso, uma nova organização dos espaços nos permite privilegiar a individualidade e a reconquista das memórias de cada um, ao mesmo tempo que  potencializa a ideia de pertencimento dos alunos a Canuanã. Desmistificar o status da escola como espaço somente de aprendizado e transformá-la em um território com valor de lar.

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